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quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Quando um Homem Quiser

Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão 

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão 

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher 

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e comboios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão 

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão 

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher
Ary dos Santos

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Muito, Meu Amor

Quando é que isto começou?
Isto, o quê?
Isto.
O amor?
Talvez.
O amor?
Sim, pode ser isso. Quando é que o amor começou?
Começou antes de ter começado.
E depois?
E depois não acabou quando devia acabar. Durou mais tempo. O coração bate mais tempo. Não há maneira de parar o coração.

Pedro Paixão

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Colhe o Dia, porque És Ele

Ricardo Reis, in "Odes"

Uns, com os olhos postos no passado, 
Vêem o que não vêem: outros, fitos 
Os mesmos olhos no futuro, vêem 
O que não pode ver-se. 

Por que tão longe ir pôr o que está perto — 
A segurança nossa? Este é o dia, 
Esta é a hora, este o momento, isto 
É quem somos, e é tudo. 

Perene flui a interminável hora 
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto 
Em que vivemos, morreremos. Colhe 
O dia, porque és ele.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Renovação diária

Nem sempre a realidade se apresenta na forma daquele lindo sonho. Mesmo sem querer, criamos expectativas para tudo na vida. Todo mundo espera pelo príncipe encantado, pelo trabalho dos sonhos, pela família de comercial de margarina light, pelo cabelo da modelo no comercial de shampoo, pelos milagres prometidos nas capas de revista. Mas o dia a dia pode ser duro, o mundo real pode se mostrar um pouco mais cruel que os sonhos adocicados. Frequentemente esquecemos que a perfeição só existe naquele filme que está em cartaz no cinema pertinho da sua casa. Não entendo essa nossa mania desumana de querer que tudo seja sempre especial, único e intenso. A rotina não tem nada de bonita. As pilhas e pilhas de relatórios em cima da sua mesa só acumulam. O cachorro continua fazendo xixi na perna do sofá. O telefone continua sem tocar. Você segue esperando alguma coisa boa cair do céu no seu colo macio e sedoso.
Será que o erro não está aí dentro? Será que não é a hora certa de rever atitudes, pensamentos e conceitos? Será que não estamos querendo um mundo ideal e por vezes esquecemos que muitas coisas estão, sim, em nossas mãos e que outras tantas não dependem de nós? Será que esquecemos que, sendo seres imperfeitos, não podemos cobrar a perfeição dos outros? Será que não queremos frios na barriga diários, fogos de artifício e trilhas sonoras para momentos simples? Será que não estamos cegos?
Coisas boas acontecem todos os dias, é só abrir os olhos e o coração para a infinidade de pequenas alegrias. Não adianta buscar emoção, sonho e fantasia se você
não sabe fazer um momento aparentemente simples virar especial. Tudo está dentro de nós e eu te garanto que isso não é papo para boi dormir. Não espere grandes acontecimentos, aprecie tudo que a vida oferece com um sorriso no rosto. Não espere uma cena de filme, faça e viva a sua vida da forma que puder e souber. Mas entenda que os melhores momentos acontecem quando estamos distraídos pensando que a vida do outro é bem mais interessante que a nossa.
Clarissa Corrêa

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Da timidez

Ser um tímido notório é uma contradição. O tímido tem horror a ser notado, quanto mais a ser notório. Se ficou notório por ser tímido, então tem que se explicar. Afinal, que retumbante timidez é essa, que atrai tanta atenção? Se ficou notório apesar de ser tímido, talvez estivesse se enganando junto com os outros e sua timidez seja apenas um estratagema para ser notado. Tão secreto que nem ele sabe. É como no paradoxo psicanalítico, só alguém que se acha muito superior procura o analista para tratar um complexo de inferioridade, porque só ele acha que se sentir inferior é doença.
Todo mundo é tímido, os que parecem mais tímidos são apenas os mais salientes. Defendo a tese de que ninguém é mais tímido do que o extrovertido. O extrovertido faz questão de chamar atenção para sua extroversão, assim ninguém descobre sua timidez. Já no notoriamente tímido a timidez que usa para disfarçar sua extroversão tem o tamanho de um carro alegórico. Daqueles que sempre quebram na concentração. Segundo minha tese, dentro de cada Elke Maravilha existe um tímido tentando se esconder e dentro de cada tímido existe um exibido gritando "Não me olhem! Não me olhem!" só para chamar a atenção.
O tímido nunca tem a menor dúvida de que, quando entra numa sala, todas as atenções se voltam para ele e para sua timidez espetacular. Se cochicham, é sobre ele. Se riem, é dele. Mentalmente, o tímido nunca entra num lugar. Explode no lugar, mesmo que chegue com a maciez estudada de uma noviça. Para o tímido, não apenas todo mundo mas o próprio destino não pensa em outra coisa a não ser nele e no que pode fazer para embaraçá-lo.
O tímido vive acossado pela catástrofe possível. Vai tropeçar e cair e levar junto a anfitriã. Vai ser acusado do que não fez, vai descobrir que estava com a braguilha aberta o tempo todo. E tem certeza de que cedo ou tarde vai acontecer o que o tímido mais teme, o que tira o seu sono e apavora os seus dias: alguém vai lhe passar a palavra.
O tímido tenta se convencer de que só tem problemas com multidões, mas isto não é vantagem. Para o tímido, duas pessoas são urna multidão. Quando não consegue escapar e se vê diante de uma platéia, o tímido não pensa nos membros da platéia como indivíduos. Multiplica-os por quatro, pois cada indivíduo tem dois olhos e dois ouvidos. Quatro vias, portanto, para receber suas gafes. Não adianta pedir para a platéia fechar os olhos, ou tapar um olho e um ouvido para cortar o desconforto do tímido pela metade. Nada adianta. O tímido, em suma, é uma pessoa convencida de que é o centro do Universo, e que seu vexame ainda será lembrado quando as estrelas virarem pó.
Luiz Fernando Veríssimo

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Coisas

Faz tempo que não te escrevo assim, despretensiosamente, sobre as coisas de dentro. Apesar de dormirmos e acordarmos juntos, de falarmos sobre uma infinidade de assuntos, de darmos abraços sem fim, beijos de todas as cores e olhares silenciosos, nem sempre falamos sobre as coisas de dentro.
Um "eu te amo" às vezes sai rápido, ao fim de uma conversa ao telefone ou um pouco antes de um de nós sair de casa. Outro "eu te amo" também sai pela boca um pouco mais lento, sem motivo, no meio de um filme, de um jantar ou quando fazemos coisas banais, como por exemplo: eu no banho e você fazendo a barba; eu no sofá lendo uma revista e você ao meu lado lendo um livro; eu cortando carne e você colocando a mesa. "Eu te amo" nós dizemos todos os dias, muitas vezes sem pensar: a voz apenas sai e diz o que está impresso no coração. Mas o que existe por trás dessas três palavras? O que existe, afinal, por trás do amor?
Já ouvi muitas definições sobre este sentimento único. Eu mesma já tentei defini-lo, sem sucesso, obviamente. Não me atrevo a tentar justificar ou denominar algo que está dentro das pessoas. Nós nos amamos. Muito. Mas o meu amor é diferente do seu. Assim como o amor que temos é diferente do amor que outros casais têm. Então o amor não é igual, linear. Ele é diferente, ajustável, anatômico. Acho que o amor deve ser diferente porque os corações nunca são iguais.
O amor tem as suas particularidades, mas não é mais bonito ou mais feio, mais gordo ou mais magro, mais careca ou cabeludo. Ele simplesmente é. E o fato dele apenas ser se sustenta e o deixa belo, independente de sua forma. Pode soar meio confuso tudo isso, mas o amor é. Ele não precisa de mais nada: apenas surgir e ser. Porque quando ele é permanece até o fim do mundo.
É por isso que eu quero te agradecer. Obrigada por me amar. Obrigada por estar ao meu lado quando eu mais preciso, quando me perco, quando não sei quem sou, quando mergulho e não encontro o caminho de volta. Obrigada por me amar quando eu esqueço as chaves, quando roubo as tuas meias, quando coloco a xícara em cima da mesa sem o porta-copos, quando esqueço de trocar o lixo, quando não ouço e quero apenas falar, quando sou teimosa. Obrigada por me amar nos meus dias ruins, quando estou assustada ou agressiva, chateada ou morna. Obrigada por me amar mesmo sendo mandona, mimada e brava. Obrigada por me amar quando não sei o que fazer, quando não consigo dizer ao certo o que preciso, quando o que aparece é só o meu avesso. Obrigada por amar minhas fraquezas, angústias e asperezas. Obrigada por amar minha sujeira, meu lixo interno, meus cabelos no ralo, meu lado azedo e estragado. Obrigada por amar meu jeito muitas vezes infantil. Obrigada por amar meus defeitos, que não são poucos. Obrigada por amar minhas celulites, estrias, meu dedo esquisito, minha mancha do pescoço, meu dente que entortou depois que o siso apareceu. Obrigada por amar minhas incontáveis sardas e cada hematoma que aparece na minha pele branca sempre que sem querer bato na mesa, na cadeira, na porta, no armário, em qualquer lugar. Obrigada por amar minha forma desastrada de ser. Obrigada por me amar quando falo sem pensar, quando o filtro vai embora, quando surto, enlouqueço, grito ou vomito frases feias. Obrigada por me amar quando eu erro. Obrigada por me amar quando eu não sou tão legal. Obrigada por me amar quando o amor anda na corda bamba. Obrigada por me amar quando eu acabo esquecendo de gostar de mim. Obrigada por amar o que escolhi ser. Obrigada por amar quem eu sou e não quem você gostaria que eu fosse. Isso, sim, é amor.
Clarissa Corrêa

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Boa fé

De vez em quando brigo comigo mesma. Não quero dar o braço a torcer, aceitar verdades ou o que é inevitável. E te digo: ter fé é inevitável. Não tem como a gente não acreditar em alguma coisa. Por mais que a vida cuspa na sua cara você vai continuar acreditando nela. Pode até pisar mais forte no chão, esbravejar ou quebrar uma xícara de porcelana na parede, mas o fato é que um dia quando a raiva for embora e a calmaria chegar no seu coração você vai voltar a pensar que as coisas vão ser melhores. Porque elas são. Tudo depende do nosso olhar, da nossa disposição, da forma como encaramos, de como nos comportamos diante de uma adversidade. Se você pensar que não consegue certamente vai fraquejar. Se você achar que não é capaz as forças vão sumir devagarinho, como uma estrela que se apaga na imensidão do céu. Se você achar que não pode o vento vai soprar com mais intensidade até te derrubar feito um papel fininho que voa no meio da rua.
Sei que uma hora cansa, já que parece que tudo empaca e nada se desenrola nem com reza forte. Parece até um teste de paciência. Mas a vida é assim mesmo, ela tem fases. Algumas são coloridas, boas, alegrias. Outras são turbulentas, acinzentadas, estranhas. Tem ainda as difíceis, doloridas e negras. Só que tudo, mesmo que você não queira ou torça o nariz, passa. Então não tem muito jeito: é respirar fundo até sentir o ar te abraçar, chorar para mandar embora o medo, gritar para espantar a dor, arregaçar as mangas e trabalhar lado a lado com a fé.
Clarissa Corrêa

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Pequenos céus somados

O pássaro que voará mais alto é o pássaro que nunca desistiu de puxar a coleira.
Será a ave amarrada pelas patas que não se conformou com o confinamento da gaiola e que toda manhã esticará seu corpo até o máximo.
Até o máximo daquele dia.
Não pode se soltar, mas nem por isso se sentirá preso. Não é livre, mas nem por isso deixará de admirar a possibilidade de flanar.
Se não tem condições de brincar com as árvores, brincará com sua sombra.
Se não tem como brigar pela comida, valorizará o alpiste que recebe em sua tigela quebrando minuciosamente cada grão.
Se não tem vento para expor sua plumagem, baterá as asas para fazer vento em si.
Se não tem o sol na cara, levantará as unhas pelas barras das grades por um punhado de luz.
O pássaro que voará mais alto sempre é o que – enquanto não pode voar – canta, é o que – enquanto não pode subir – caminha, é o que – enquanto não pode planar – afia o bico.
Não reclamará da falta de opção, usará as opções que tem.
Não pode voar, mas treina seu voo esticando a coleira até o máximo. Até o máximo daquele dia.
Puxará a corrente ao limite. Somará pequenos céus com os centímetros de sua corrente.
Tudo o que voará depois será resultado de tudo o que andou em seus limites. Cinco passos repetidos à exaustão darão o condicionamento de quilômetros. Não estará destreinado para as alturas, já que exercitou seu fôlego no chão.
Não desistiu de avançar mesmo com a ausência de espaço. Não se restringiu a uma aparência apagada. Não se encabulou pelo sofrimento.
Quando não havia chance de sair dali, aproveitou a solidão para se conhecer.
Quando não havia com quem conversar, aproveitou o silêncio para afinamentos.
Deveria ser triste pelas suas circunstâncias, porém é feliz pelo temperamento.
Deveria ser melancólico pelo destino, porém é confiante no acaso.
O pássaro que desaparecerá um dia no alto das nuvens, como se fosse mais uma nuvem, foi o pássaro que jamais parou de tentar.
Só voará alto quem carregou suas penas.
Só voará alto aquele que criou seu lugar um pouco por vez, aquele que formou sua virtude em segredo, aquele que não culpou a vida para se manter parado.
Liberdade vem com o tempo, liberdade vem devagar, liberdade é esforço. Não ser do tamanho de nossa prisão, mas ser do tamanho de nossa vontade.
Carpinejar

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Poema à boca fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

Jose Saramago In OS POEMAS POSSÍVEIS

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Esperemos


Há outros dias que não têm chegado ainda,
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas
- há fábricas de dias que virão -
existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos
com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato.

Pablo Neruda



quarta-feira, 28 de agosto de 2013

A Essência da Poesia

Não aprendi nos livros qualquer receita para a composição de um poema; e não deixarei impresso, por meu turno, nem sequer um conselho, modo ou estilo para que os novos poetas recebam de mim alguma gota de suposta sabedoria. Se narrei neste discurso alguns sucessos do passado, se revivi um nunca esquecido relato nesta ocasião e neste lugar tão diferentes do sucedido, é porque durante a minha vida encontrei sempre em alguma parte a asseveração necessária, a fórmula que me aguardava, não para se endurecer nas minhas palavras, mas para me explicar a mim próprio. 
Encontrei, naquela longa jornada, as doses necessárias para a formação do poema. Ali me foram dadas as contribuições da terra e da alma. E penso que a poesia é uma ação passageira ou solene em que entram em doses medidas a solidão e solidariedade, o sentimento e a ação, a intimidade da própria pessoa, a intimidade do homem e a revelação secreta da Natureza. E penso com não menor fé que tudo se apoia - o homem e a sua sombra, o homem e a sua atitude, o homem e a sua poesia - numa comunidade cada vez mais extensa, num exercício que integrará para sempre em nós a realidade e os sonhos, pois assim os une e confunde.
E digo igualmente que não sei, depois de tantos anos, se aquelas lições que recebi ao cruzar um rio vertiginoso, ao dançar em torno do crânio de uma vaca, ao banhar os pés na água purificadora das mais elevadas regiões, digo que não sei se aquilo saía de mim mesmo para se comunicar depois a muitos outros seres ou era a mensagem que os outros homens me enviavam como exigência ou embrazamento. Não sei se aquilo o vivi ou escrevi, não sei se foram verdade ou poesia, transição ou eternidade, os versos que experimentei naquele momento, as experiências que cantei mais tarde. 
De tudo aquilo, amigos, surge um ensinamento que o poeta deve aprender dos outros homens. Não há solidão inexpugnável. Todos os caminhos conduzem ao mesmo ponto: à comunicação do que somos. E é necessário atravessar a solidão e aspereza, a incomunicação e o silêncio para chegar ao recinto mágico em que podemos dançar com hesitação ou cantar com melancolia, mas nessa dança ou nessa canção acham-se consumados os mais antigos ritos da consciência; da consciência de serem homens e de acreditarem num destino comum. 

Pablo Neruda, in "Nasci para Nascer" (Discurso na entrega do Prémio Nobel)

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Evoluir

"Nós não somos a somatória dos nossos condicionamentos. Como dizia Freud: Nós somos o que repetidamente fazemos. Mas, além disto, nós podemos ficar livres dos nossos apegos, desde que tenhamos consciência do que desapegar. Desapegar de sentimentos, comportamentos, doenças... Sofremos por não ter coragem de abrir mão e deixar ir o que não nos serve mais. Quando nos tornamos CONSCIENTES de alguma coisa, passamos a dominá-la. No momento em que compreendemos, aprendemos e evoluímos."

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Último poema

Assim eu quereria o meu último poema. 
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais. 
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas. 
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume. 
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos. 
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
[Desconheço o autor]

quarta-feira, 10 de julho de 2013

A dor que dói mais


Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.

Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa. Dóem essas saudades todas.

Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o escritório e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua pintando o cabelo de vermelho. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango assado, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua surfando, se ela continua lhe amando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber se ele está com outra, e ao mesmo tempo querer. É não querer saber se ela está feliz, e ao mesmo tempo querer. É não querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim, doer.

Martha Medeiros

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Nós mulheres

Parabéns para você, que, linda, lida com explosões hormonais uma vez ao mês. Que sente tudo inchar. Que chora por besteira. Que valoriza bobagens. Que acredita em filmes de amor. Que faz coleção de esmaltes. Que ama sapatos, bolsas e cacarecos para colocar no cabelo. Que compra só porque tava em liquidação. Que sempre precisa de alguma coisa. Que acha o amor a coisa mais bonita – e importante desse mundo. Que sabe como é fundamental olhar para si mesma – ainda que de vez em quando se perca e se preocupe em demasia com o “querer” do outro. Parabéns para você, que dia a dia aprende mais sobre você mesma. Que erra para aprender. Que é forte o suficiente para seguir em frente – sem lamúrias, mas com maturidade e sensatez. Que de vez em quando esquece a própria idade e o juízo em algum canto. E depois acha, como mágica. Parabéns para você, que tem um sonho. Que não desiste, apesar do que falam. Que não se abala, apesar do medo. Que sente uma fraqueza interna, mas caminha com passos firmes. Que fica tonta, mas não desmaia. Que apesar de cada pedra no caminho, corre. Que reclama dos problemas, mas entende que a vida é feita deles. Que tenta entender o defeito alheio – e procura perceber os seus.
Clarissa Corrêa